Olá, me chamo Hudson Botelho.
Lembro-me de como era a vida quando criança. São várias memórias boas, de uma época em que meu pai e minha mãe sempre faziam o possível para me ver bem. Apesar de ter um pai rígido e uma mãe um pouco mais sagaz, ambos sempre me deram educação e me proporcionaram tudo aquilo que estava ao alcance deles.
Cresci em uma vila militar, onde todos os meus amigos de infância também eram filhos de militares. Por ser um ambiente rígido, sabíamos que precisávamos aprontar com cautela. Às vezes, porém, as coisas saíam do controle, como quando colocávamos fogo na serra que ficava ao lado da vila ou quando aconteciam alguns acidentes com fogos de artifício.
Eram tempos diferentes, de descobertas, brincadeiras e uma inocência que, naquela época, não nos permitia compreender completamente as consequências de certas atitudes.
Até que veio o divórcio dos meus pais.
As coisas mudaram um pouco — ou talvez tenham mudado completamente. Naquela idade, eu não sabia como lidar com aquilo. Acabei fazendo algumas coisas para chamar a atenção, algumas influenciadas pelo meu pai e outras por escolha própria.
No fundo, acreditava que minhas atitudes poderiam fazer com que eles reatassem o relacionamento. Na minha imaginação de criança, aquilo parecia perfeitamente possível.
Mesmo após o divórcio, meu pai continuou morando conosco. Foi uma escolha deles, pensando em mim e na minha irmã, que, por sinal, é a melhor irmã do mundo. Acredito que essa decisão tenha sido uma tentativa de fazer com que sentíssemos menos os efeitos da separação.
Meu pai sempre foi uma pessoa muito correta, embora extremamente rígida e, em determinados assuntos, até ignorante na maneira de lidar com as situações. Apesar disso, também tinha um coração mole para certas coisas. Era ansioso, e acredito que tenha sido dele que herdei um pouco dessa ansiedade.
Minha mãe, por outro lado, sempre foi mais sagaz. Sabia conversar com as pessoas, compreender determinadas situações e lidar com os outros de uma maneira diferente. E continua sendo assim até hoje.
No início do divórcio, acabei culpando minha mãe pela separação, muito por influência do meu pai. Hoje, olhando para trás, percebo o quanto fui injusto com ela.
Com o amadurecimento, passei a compreender que ninguém é obrigado a permanecer em um relacionamento no qual não deseja mais estar. Minha mãe não tinha obrigação de continuar vivendo com meu pai e de lidar com uma personalidade que, muitas vezes, era difícil.
Após o divórcio, ela se mudou para sua cidade natal.
Eu permaneci na minha cidade natal com meu pai e minha irmã. Entretanto, algum tempo depois, por questões escolares, minha irmã foi morar mais perto da nossa mãe e acabou decidindo permanecer com ela. Eu, por minha vez, continuei morando com meu pai.
Meu pai, assim como minha mãe, sempre foi um dos meus alicerces. Isso não significa que nossa convivência tenha sido perfeita. Tivemos nossos atritos, principalmente pela maneira como ele se expressava em determinados momentos, utilizando palavras que, muitas vezes, eram inadequadas ou duras com outras pessoas.
Essas situações geravam desentendimentos entre nós, mas, de alguma forma, sempre acabávamos nos resolvendo posteriormente.
Hoje, com a maturidade que adquiri ao longo dos anos, consigo olhar para o passado de uma maneira diferente. Não culpo mais meu pai pela influência que exerceu sobre mim durante o divórcio, especialmente quando acabei me colocando contra minha mãe.
Entendo que as pessoas também são frutos de suas próprias histórias, de suas dificuldades e da maneira como aprenderam a lidar com a vida.
Eu o perdoei.
E espero, de coração, que ele também tenha me perdoado pelas coisas erradas que fiz.
Talvez uma das maiores lições do amadurecimento seja justamente essa: compreender que nossos pais, antes de serem pais, também são seres humanos. Pessoas com erros, acertos, limitações e sentimentos que, quando crianças, nem sempre conseguimos enxergar.